Era explicitamente paixão. Amara-a desde o instante que a vira, ansiava por conquista-la. Meses mais tarde, já havia conseguido. Viviam um romance emocionante, inspirativo e, como possuiam sua própria renda, já começavam planos de viverem juntos. Foi então que um dia aconteceu.
- Amor, estou grávida.
A princípio, ele levou numa boa. Acreditava que seria lindo poder cuidar de uma criança. Nossa, ele seria pai! Mas algo o incomodava, apesar de tudo. Ter filhos era uma coisa séria, havia de ter que criar planos para o futuro, preparar todo o terreno para aquele minúsculo ser que estava por vir.
Seguindo a anterior idéia, optaram então por viverem logo juntos. Alugaram uma casa, compraram o que puderam de mobília, pegaram com amigos outras coisas e instalaram-se no imóvel. Os dois, claro, estavam empolgadíssimos por viverem aquela vida a dois, terem seu amado ao lado. Ele ainda mais pois poderia andar de cueca sem que a sogra o perturbasse.
Com o passar dos meses, ele pegou-se pensando sobre o bebê enquanto olhava para a barriga de sua mulher. Filhos. Extrema responsabilidade de quem os cria. Ainda mais para ele, ser boêmio, amante de shows que invadem a noite, depois as caminhadas pelas ruas sombrias, entre bares, relembrando a sonoridade espetacular. Agora teria que sentar no sofá nas sextas e sábados, olhar para o chão e cuidar para que o minúsculo ser não fizesse algo que pudesse danificar sua vida e marcar a mente dos pais para todo o resto de suas vidas. Era uma situação crítica aquela. Um ser enrugado, pesando pouco mais que um saco de feijão, pirracento. Um ser que, se fizesse merda, arruinaria a felicidade do casal. Era responsabilidade demais.
Como ela conseguia o feito de levar tudo numa boa. Sorridente, carinhosa com aquela bolha imensa em sua barriga, o umbigo estufado parecendo um suporte pra bola de gude. Como ela conseguia isso? Ela não o amava. Ela não via que seu amado era da noite. Como ela podia fazer aquilo com ele, trancafia-lo utilizando-se de um feto?
Duas semanas mais tarde, a bomba. O bebê saira cedo demais, ela teve um aborto indesejado. E ele, em sua profunda reflexão sobre o caso, vai até a sala, onde ela encontrava-se tristonhamente prostrada após ligar para os pais, avisando o ocorrido, e diz:
- Decidi, não te quero mais.